24/02/2019

Violência Neonatal


O atendimento ao recém-nascido a termo saudável na sala de parto tem sofrido uma série de modificações nos últimos anos.  Essas modificações foram realizadas com o intuito de promover melhoras no cuidado, contribuindo para a redução das taxas de morbimortalidade neonatal no Brasil.

No entanto, com uma reflexão mais aprofundado sobre as condutas profissionais aplicadas aos recém-nascidos nos possibilita constatar uma série de procedimentos realizados de maneira automatizada e generalista .

Um bebê ao nascer a termo e sem necessidades especiais, através de parto sem complicações, seja via vaginal ou cesariana, não necessita de qualquer tipo de assistência que não seja a da mãe. Porém, no atual sistema de assistência ao parto, muitas vezes o bebê é separado de sua mãe para o cumprimento de protocolos, onde constam diversos procedimentos de avaliação, medicação, higiene e observação, para só então, após o cumprimento das rotinas médico-hospitalares, conhecer a sua mãe.

Dentre os procedimentos mais realizados como rotineiros em recém-nascidos a termo e não portadores de necessidades especiais podemos citar:

Manejo inadequado do recém-nascido ou manipulação excessiva.
Corte precoce do cordão umbilical;
Aspiração de vias aéreas e gástrica;
Sondagem anal;
Receber tapinha para chorar;
Afastamento do bebê para realização do teste Apgar;
Administração de Nitrato de Prata(colírio): Mesmo em mães não portadoras de infecção genital ou que tenha tido parto cesárea.
Administração Injetável de Vitamina K e vacina contra hepatite B;
Pesagem, perimetria, estadiometria, banho imediato, observação pós-nascimento e manutenção em berço térmico, antes da primeira hora de vida, tirando o direito de vinculo pós-parto.
Excesso de luminosidade e sonoridade.


Abaixo descrevo uma breve resumo sobre as práticas consideradas violência obstétrica relacionada ao recém-nascido. Que descrevi em meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) onde abordei a temática da violência obstétrica e neonatal.


Manejo inadequado do recém-nascido ou manipulação excessiva.
Muitos bebês ao nascerem, são segurados sem o mínimo de cuidado, algumas vezes pelos pés ficando de cabeça para baixo, como bichos em abatedouros e são literalmente jogados sobre suas mães ou no berço aquecido. Sua pele sensível é esfregada com panos, eles são virados de um lado para o outro para uma inspeção como produto em linha de produção.

A manipulação excessiva do RN é considerada um fator desencadeante de estresse, causando medo, ansiedade, dor, alterações em seu estado emocional, favorece a instabilidade de seus sinais vitais, provoca a irritabilidade e o choro constante.

O manuseio mínimo é muito importante nas primeiras 72 horas de vida e deve ser incorporado por todos os profissionais.


Separar o bebê de sua mãe.
Nos partos hospitalares, o neonatologista normalmente após realizar os procedimentos desnecessários mencionados acima, permite apenas um breve contato do bebê com a mãe na sala de parto e já leva o recém-nascido para o berçário onde ele será pesado, medido, avaliado e ficara em observação entre duas a quatro horas. Esse procedimento não tem justificativa no caso de um bebê saudável e é prejudicial para o estabelecimento do vínculo bebê-mãe e para o início da amamentação.

O contato pele-a-pele precoce tem benefícios cientificamente comprovados e é recomendado pelo Organização Mundial da Saúde. Sendo assim, imediatamente após o nascimento o bebê saudável deve ficar em contato com a pele da mãe e não contato pano a pano. Esse contato físico deve ser contínuo e prolongado por no mínimo uma hora.

O contato corporal mãe/bebê ajuda a regular a temperatura do recém-nascido, a manutenção do equilíbrio acidobásico, o ajuste da respiração e do choro, e promove o comportamento cuidador materno.

Os protocolos clínicos baseados nas melhores evidências disponíveis recomendam que recém-nascidos saudáveis devam ser assistidos junto de suas mães.


Clampeamento e corte precoce do cordão umbilical
As atuais publicações sobre o tema e a Organização Mundial da Saúde, referem que não é recomendado cortar o cordão umbilical antes de ele parar de pulsar. De acordo com evidências científicas este procedimento aumenta a incidência de anemia na infância.

A prática do clampeamento precoce é realizada rotineiramente nas maternidades tendo como principal argumento a prevenção de icterícia e policitemia. Porém, existem cada vez mais evidências de que o atraso do corte é benéfico para a saúde do recém-nascido.

A Organização Mundial da Saúde (2012), recomenda o clampeamento tardio do cordão umbilical que deve ser realizado 1 a 3 minutos após o nascimento. Também é possível aguardar a expulsão da placenta antes do clampeamento e corte do cordão umbilical.


Aspiração das vias aéreas
A aspiração das vias aéreas é realizada com o intuito de remover as secreções do sistema respiratório do recém-nascido. Huberman (2016), descreve que a aspiração das vias aéreas é orientada em algumas situações específicas como quando o bebê nasce deprimido, ou quando houver presença de mecônio espesso, quando se suspeitar de atresia de coanas, que corresponde à falha no desenvolvimento da comunicação entre cavidade nasal posterior e nasofaringe ou na presença de má formação esofágica.

O autor ainda refere que o procedimento quando realizado sem necessidade, pode gerar riscos como: arritmias cardíacas, laringoespasmo (oclusão da glote devido à contração dos músculos da laringe) e vasoespasmo da artéria pulmonar. O autor ainda ressalta que a grande maioria dos bebês nascem bem e não precisam ser aspirados pois são perfeitamente capazes de limpar suas próprias vias aéreas (tossindo e espirrando). Ele explica que os bebês que nascem por parto vaginal, ao passar pelo canal de parto, os pulmões do bebê são massageados, provocando a expulsão natural dos líquidos. Ele alerta que a aspiração orotraqueal (pela boca) e a aspiração nasotraqueal (pelo nariz), causam muito desconforto para o bebê.


Aspiração gástrica
Esse procedimento pode ser necessário para o recém-nascido em algumas situações como má formação do tubo digestivo ou quando o bebê que nasce deprimido ou com muito mecônio. (HUBERMAN, 2016).

O autor ainda refere que a maioria dos recém-nascidos, mesmo os nascidos de parto cesáreo, não necessitam ser aspirados. A aspiração pode levar a diminuição de frequência cardíaca, parada respiratória, espasmos de laringe, queda da pressão arterial e dificuldade de sugar, prejudicando a amamentação. Dessa forma, podemos verificar que quando realizada de forma rotineira e sem necessidade a aspiração gástrica pode ser prejudicial para o recém-nascido.



Sondagem anal

Com relação à sondagem anal Hubermam (2016), descreve que é comum introduzir uma sonda no ânus do bebê para verificar se a passagem está desobstruída. Tal procedimento pode ser incomodo para o bebê e uma alternativa seria aguardar ao menos 24 horas para ver se o bebê faz cocô e só depois observar se é necessário fazer o procedimento.



Método de credeização com nitrato de parta a 1%
O método credeização ou método de credé com nitrato de prata a 1% (um tipo de colírio), aplicado nos olhos do RN logo após o parto é uma prática polêmica diante da discussão do tema violência obstétrica e humanização do nascimento, este vem sendo estudada por diversos autores, pois mesmo em casos de resultado negativo para clamídia e gonorréia ou diante de um parto cesáreo; a administração do colírio ainda é realizada para prevenção de conjuntivite neonatal, porém, as pesquisas mais recentes demonstram que esse medicamento não é totalmente eficaz e inclusive pode provocar conjuntivite química no bebê (PASSOS, AGOSTINI, 2011).

Além disso, essa pratica quando realizada logo após o nascimento do bebê pode prejudicar o contato visual precoce entre mãe e filho, já que a credeização pode diminuir temporariamente a abertura ocular e inibir a resposta visual. O principal questionamento da realização desse método não esta focado na sua utilização e sim quanto ao momento mais adequado para esta aplicação, que pode ser realizada preferencialmente após o primeiro contato entre mãe e bebê conforme recomendações da Organização Mundial de Saúde (BRASIL, 2001).

O método de credeização vem sendo considerado uma violência obstétrica relacionada ao RN, pois na maioria das vezes é realizado sem o esclarecimento e consentimento da mãe logo após o parto e como citado acima acaba por prejudicar o contato visual entre mãe e bebê.


Administração Injetável de Vitamina K e vacina contra hepatite B
A administração de Vitamina K e vacina contra hepatite B também são procedimento que não devem ser realizados assim que o bebê e podem esperar um certo tempo para serem realizados.

Mas, em muitas maternidades, logo após o nascimento o bebê é levado para a sala de procedimentos onde receberá duas injeções uma de Vitamina K e outra de Vacina contra Hepatite B, uma em cada coxinha. O bebê será perfurado duas vezes por uma agulha que lhe causará dor.

Devo lembrar que a recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria e do Ministério da Saúde é que a primeira dose da vacina contra a Hepatite B, deve ser aplicada preferencialmente nas primeiras 12 horas de vida. Já com relação a Vitamina K, a OMS e o MS recomendam sua aplicação passada a primeira hora de vida.

Sendo assim, não vejo a necessidade de retirar o bebê de perto da mãe, levando-o para o berçário ou um berço longe dela para que essa vitamina e vacina sejam aplicadas logo após o seu nascimento.

A primeira hora após o parto deve ser exclusiva da mãe e do bebê. E estas injeções podem ser aplicadas após esse período e de preferência enquanto a mãe estiver amamentando, pois, o contato pele a pele ajuda o recém-nascido a lidar com a dor.



O Banho precoce
É comum o recém-nascido ser submetido ao banho pela equipe de enfermagem assim que nasce, sobre o suposto objetivo de remover toda a “sujeira” do bebê, para que este seja entregue limpinho para a família. Só que, o que eles chamam de sujeira é na realidade o vérnix caseoso que uma proteção natural do bebê.

O vérnix é um material gorduroso branco, formado pelo acúmulo de secreção das glândulas sebáceas e inclui células epiteliais e lanugem e que recobrem a pele do recém-nascido. O bebê pode apresentar uma camada fina ou espessa de vernix que normalmente é absorvido nas primeiras horas de vida.

Esse vérnix protege a pele do bebê contra bactérias, ajuda a fazer a termo regulação e é importante para uma boa adaptação extra-uterina. Segundo a Organização Mundial de Saúde, o vérnix caseoso não deve ser removido imediatamente. O banho deve ser adiado por pelo menos 6 horas após o nascimento.

Mas existem alguns casos em que a sua remoção deve ser realizada logo após o nascimento, como por exemplo no caso de bebês de mães com HIV, história de infecções prévias e perinatais, e também em casos de líquido amniótico meconial ou fétido.

Quanto ao banho Huberman (2016), refere que a parturiente pode escolher que o primeiro banho do bebê seja dado no momento que quiser, podendo ela mesma dar o banho estando e boas condições de saúde ou atribuir essa função a alguém da família.


O trauma do nascimento
O trauma do nascimento vem sendo estudado e discutido na literatura a muito tempo, principalmente na área da psicologia. Freud já afirmava que as fobias presentes na infância têm sua origem na situação de extrema angústia que sente a criança no momento do nascimento, ao ser separado de sua mãe. Essa tese reafirma, atualmente, a necessidade da humanização do nascimento. (BASBAUM, 1984, p. 38)

Em muitos partos hospitalares, o protagonismo do parto e nascimento deixa de pertencer a mãe e o bebê para passa a pertencer à equipe médica e de enfermagem e a criança torna-se propriedade do hospital, ficando sujeita a tudo quanto é tipo de procedimento mesmo que desnecessário.

E como visto acima, vários são os procedimentos e condutas médicas realizados de forma rotineira, com indicações questionáveis e maquiadas que são realizados com a justificativa de melhor opção de assistência.

E a falta de conhecimento, de opção e direito de escola acaba levando a mulher e/ou a família e até mesmo a população a uma aceitação quase que inquestionável desses procedimentos e condutas impostas pelos médicos ou equipe de assistência ao parto e nascimento.

O respeito no parto não termina na mulher, a criança precisa e deve ser respeitada. Muitos pediatras desatualizados ainda seguem protocolos médicos arcaicos que causam muita dor no recém-nascido, sem necessidade e sem usar as evidências científicas atualizadas. O nascimento acaba se tornando um evento torturante e violento contra a criança.

É fundamental prestar ao RN cuidados individuais e personalizados para que esse possa transitar tranquilamente da vida intrauterina a nova vida, interagir precocemente com sua mãe e com seu pai, desenvolver-se física e psiquicamente, e também para a diminuição da morbimortalidade neonatal.


Abaixo deixo um vídeo para que vocês possam entender claramente do que se trata a Violência Neonatal, as imagens expressaram extamente tudoq eu comentei na leitura acima.



Até a próxima !



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